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Como os indígenas do Alto Solimões estão enfrentando a COVID-19

  • Publicado: Sábado, 09 de Maio de 2020, 12h39
  • Última atualização em Sábado, 09 de Maio de 2020, 12h42

George H. Rebêlo, pesquisador do INPA, lider do Grupo de Pesquisas Ecologia Humana na Amazônia, doutor em Ecologia. 

Desde o começo da pandemia tenho acompanhado as reações e os relatos das pessoas nas redes sociais, em listas de whatsapp com centenas de indígenas e parceiros. Nessas redes, além de haver um material abundante e diversificado, há uma reprodução dos conflitos ideológicos que fraturaram a sociedade nacional, acrescidos dos conflitos e desavenças entre comunidades, etnias e classes sociais na região da fronteira, multiétnica e internacional. Navegar nesse mundo, sem poder fazer muita coisa, serviu para me informar do crescimento agudo dos problemas, das angústias e desamparo dos povos originários, agentes públicos e atores sociais na região do Alto Solimões. Essa percepção distante - de um mundo com o qual tenho interagido desde 2005 – me levou a construir, em parceria com professores que atuam na região, uma campanha de arrecadação de doações para os indígenas que vivem nas cidades de Tabatinga e Benjamin Constant.  

Já os relatos em primeira mão que reproduzo aqui, são depoimentos atualizados de indígenas que são também parceiros de pesquisa, e refletem seus pontos de vista privilegiados e com suas próprias tonalidades.  

Em São Paulo de Olivença, segundo o caixana Jorge Penaforth, “o prefeito baixou decretos, [determinando o] distanciamento social nos estabelecimentos comerciais e bancos, barreiras e medidas de prevenção [...] nas ruas e no Porto principal, e desinfecção das ruas. [...] Já nas comunidades indígenas, o DSEI e a SESAI também orientaram junto com os agentes de saúde indígenas, mas isso quase não surtiu efeito pois os comunitários [continuaram] se deslocando das comunidades para a cidade em ‘canoão’ todos aglomerados, [para] retirar seus benefícios, salários, aposentadorias e salários-maternidade […] sendo difícil controlar [quando] uns respeitam e outros não.[…] Os hospitais não tem estrutura, somente para o atendimento básico. Temos médicos e enfermeiros, mas sem treinamento para essas ações de combate a COVID-19 e [em número] insuficiente. A ajuda é pouca para as comunidades, que estão precisando de EPI e cestas básicas. Muitos indígenas já foram curados com os chás caseiros e plantas medicinais, sem deixar a ciência de lado. A FUNAI prometeu a remessa de cestas básicas mas está demorando muito [e a previsão é] só para o final de junho. […] Recebi hoje da professora da UEA de Tabatinga 15 cestas básicas, que vou doar para a comunidade de Vendaval”.  

A situação em Benjamin Constant é semelhante, segundo a antropóloga ticuna Josi Ticuna, “em BC a covid-19 já virou contaminação comunitária, isso ocorreu, porque a população local não estava levando a sério. O prefeito da cidade desde o princípio tomou medidas cabíveis com objetivo de prevenir as pessoas da contaminação, logo em seguida a SESAI, junto às instituições, definiu um protocolo de prevenção [para] evitar que pessoas entrassem nas comunidades indígenas, porém teve resistência da parte das igrejas. O pior de tudo é que não respeitam e só [mudou] depois que viram pessoas morrerem. Muitos comunitários indígenas estão com a virose, segundo um morador da comunidade Feijoal, lá tem uma equipe da saúde, mas não estão dando atendimento devido. Aliás segundo o mesmo, fecharam o posto de saúde, com medo de atender os doentes e os que estão com a virose não estão em isolamento social, a situação é complexa. Até, onde eu sei a SESAI tem recursos pra montar uma equipe de profissionais para atender somente os indígenas, porém isso não está acontecendo. A FUNAI nem se fala, não vi ela se manifestar pra nada, o coordenador havia comunicado que iriam entregar 4 mil cestas básicas, e hoje [eu soube] que só chegaram 195 cestas básicas, absurdo isso. Aos [pajés e curadores tradicionais] acredito, que não deram nem valor, estamos sendo invisíveis de todas as formas. Eu e minha mãe estamos recomendando o uso de remédio tradicional e orientando quem está nos procurando pelo remédio. O chá tradicional e o inalador de folhas de plantas medicinais estão fazendo efeitos extraordinários.”  

Chama a atenção nos relatos o esforço dos atores sociais e organizações mais engajados e próximos das comunidades e a omissão ou inoperância da FUNAI, que deveria zelar pelo bem-estar da população indígena. Os indígenas diante do desamparo, reagem com solidariedade e os recursos da sua medicina e dos conhecimentos tradicionais. Mas a situação ainda é muito preocupante e o quadro descrito longe de ser tranquilizador. MANAUS(AM) 09/05/2020. 


 

 

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